sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Mística do animador(a) Vocacional

I. Introdução O cultivo da espiritualidade como um projeto global de vida é uma necessidade e um apelo nos dias de hoje. O homem é ser espiritual por natureza. Essa dimensão não pode ser esquecida quando se trata da pessoa humana. Aqui tentaremos abordar a mística do animador e da animadora vocacional como elemento imprescindível para o serviço de animação vocacional. O animador ou a animadora vocacional antes de evangelizar precisa se deixar evangelizar pela ação do Espírito Santo. Somente quem faz a experiência pessoal de um Deus amor-comunhão está em plena condição de evangelizar. Pois, entendemos o serviço de animação vocacional, como uma ação evangelizadora da nossa Igreja. Deixe teu coração transbordar daquele amor que bebeste da fonte que é Deus Trindade, comunhão de amor. II. Compreendendo melhor Espiritualidade vem de Espírito – Ruah (sopro). Espírito é força que nos convida a viver, de corpo e alma. É o que há de mais profundo e verdadeiro em nós. Espiritualidade é o conjunto das aspirações e das convicções que animam interiormente os cristãos em sua relação com Deus. Espírito é a força, é a mística que nos faz buscar vida em abundância (Jo 10,10). Mística é a seiva, é o princípio da vida, é a fé feita experiência. Espiritualidade é um jeito de se posicionar na vida. Toda autêntica espiritualidade cristã é um caminho de busca e de encontro com Deus neste mundo. Na visão cristã, a espiritualidade é a orientação consciente da vida da pessoa ou de um grupo humano em relação de comunhão com os outros e com o Deus de Jesus Cristo, sob a ação do Espírito Santo. A espiritualidade cristã é, antes de tudo, um dom do Espírito. Ele é o mistagogo do itinerário espiritual de cada pessoa. Ele cava dentro de nós a sede de Deus (Jo 4,7) e ao mesmo tempo sacia nossa sede, nos mergulhando na Fonte Trinitária. A espiritualidade não se confunde com oração, meditação, contemplação, práticas de piedade, muito embora ela integre e se alimente dessas dimensões. Uma pessoa pode rezar muito e não ter uma espiritualidade que ilumine, alimente e dê sentido ao seu itinerário espiritual e à sua vida. Há muito a dizer sobre espiritualidade, porém é muito importante que façamos a experiência espiritual do Deus da vida a partir das pequenas coisas, pequenos gestos do dia-a-dia... A palavra “mística” é originada de Mystikós, de mistério no sentido de uma realidade inesgotável ou jamais abarcável no seu todo. Como essa realidade é identificável com Deus, a mística acabou infelizmente sendo vista como o ponto culminante do itinerário espiritual e atribuída apenas aos momentos de êxtase, quando a pessoa está totalmente absorta em Deus, como que possuída por Ele. Por um lado isso é verdadeiro. Todavia, a mística precisa ser pensada também de outro ponto de vista. Não só como ponto de culminância, mas também como a capacidade para estabelecer uma comunhão com Deus (consigo mesmo, com os outros) e com a realidade cósmica. Portanto, a mística está presente na própria natureza humana, no profundo de toda a pessoa. Como diz o salmista: “Em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 36,9). A união mística é um espaço e um estágio a ser galgado. É uma conquista a ser feita. Por isso é muito importante na nossa organização existencial reservar um tempo exclusivo para cultivar a comunhão com Deus. A Deus se conhece “experimentando-o”, pela convivência. Portanto, devemos, por necessidade, cultivar nossa vida de oração como tempo dado exclusivamente a Deus, apenas por razões de fé e amizade. Isso é algo fundamental e insubstituível. Mostraremos que no âmbito da mística há três dimensões: a antropológica, a teológica e a eclesial. Na antropológica aparece uma visão de pessoa humana que se comunica com Deus. Na teológica, revela-se o Deus que se manifesta à humanidade como comunidade de pessoas (Trindade). Na eclesial, é possível identificar o animador ou a animadora vocacional como alguém inserido na Igreja. A espiritualidade verdadeira brota de uma experiência de comunidade. 1. Dimensão Antropológica A mística do animador e da animadora vocacional consiste, em primeiro lugar, naquela capacidade de fazer animação vocacional tendo presente o valor da pessoa humana (cf. Sl 8,6-9), imagem e semelhança da Trindade (cf. Gn 1,26-27). A experiência de comunhão com a Trindade se dá a partir do encontro com os vocacionados e vocacionadas. A partilha da própria vida com aqueles e aquelas que buscam descobrir o sentido da vida e do seguimento de Cristo faz-se também itinerário para uma profunda mística. Com tal afirmação, não pretendemos negar a importância da iniciativa divina e da vocação de quem faz animação vocacional. Ninguém poderia experimentar a comunhão com a Trindade se não tivesse sido atraído pelo amor e pela ternura do Pai (cf. Jo 6,44). Para envolver-se de corpo e alma no trabalho vocacional, é necessário ter vocação para trabalhar com as vocações. Todavia, para que a animação vocacional possa ser vista como serviço (cf. Jo 13,1-17), especialmente aos mais pobres e pequenos, é indispensável enxergar o Deus invisível nos irmãos e irmãs que acompanhamos por meio de nosso serviço de animação vocacional (cf. 1Jo 4,20). Para chegar ao maravilhso, para abraçar a fragância do amor trinitário, vamos sempre precisar passar pelo odor, pelo perfume do carinho e da ternura do amor humano. Por isso, somente se amamos os vocacionados e vocacionadas é que experimentaremos o toque da mão divina e ouviremos o palpitar do coração da Trindade. Sem amor humano, não se pode chegar a Deus. No encontro com os vocacionados e as vocacionadas, o animador ou a animadora deverá perceber sempre a ação do Espírito Santo, do qual são templos (cf. Rm 8,9.14-16; 1Cor 3,16). Somente quando se faz esse tipo de experiência é que a atividade vocacional se torna atraente e dinâmica. A circulação da vida divina, a centelha da vocação humana e cristã, não se propaga de qualquer jeito. Se a resposta vocacional é um caminho místico, uma espiritualidade, isso quer dizer que ela depende da ajuda de pessoas que estão certas da presença do mistério trinitário em cada ser humano. Quando o animador ou a animadora vocacional percorre essa estrada, consegue levar consigo muitos irmãos e irmãs. Esta reflexão feita acima nos leva a pensar sobre a importância da escolha de quem vai fazer animação vocacional. Infelizmente, na quase totalidade dos casos, as pessoas são “forçadas” a fazer o trabalho vocacional. Normalmente, elas são pegas de surpresa pelos bispos, pelos párocos e pelos superiores eclesiásticos, sem muito critério, sem discernimento sério. Esse processo de seleção obedece praticamente à necessidade imediata da instituição. Por isso, termina-se por colocar à frente da animação vocacional quem, muitas vezes, não possui vocação, dom, carisma para tal serviço. Por essa razão, não conseguirá fazer dessa experiência também um itinerário místico, um caminho de espiritualidade. Sem mística, qualquer atividade evangelizadora se evapora, se torna ilusória e fica apenas na boa intenção. A animação vocacional sem mística se torna “uma prática sem espírito”. E uma coisa sem espírito seria um cadáver, mesmo que estivesse acompanhada das mais sofisticadas técnicas, dos instrumentos de última geração e de um poderoso marketing. Seria um corpo colocado em um caixão luxuoso! Quando a animação vocacional é feita com base em uma autêntica experiência mística, o resultado é outro. Isso porque “a mística cristã possui um sentido mais profundo: transforma e melhora qualitativamente o ideal e o compromisso por um amor maior”. Quando há o cultivo da mística cristã, a animação vocacional passa a ser um serviço de liberdade e de libertação (cf. Gl 5,1-15). Nesse caso, o serviço de animação vocacional não se destina logo de imediato ao recrutamento de candidatos e candidatas para as instituições eclesiásticas. Seu objetivo prioritário será fazer circular a vida plena, a qual é condição primeira para o cultivo das vocações específicas. É claro que no projeto de Deus à vida humana plena coincide com o chamado para o seguimento de Jesus e a vocação universal à santidade (cf. !,3-14). Criação, redenção e santificação não são momentos justapostos, mas três dimensões simultâneas da mesma realidade. A teologia afirma que a ação da graça de Deus não elimina, mas supõe sempre a natureza humana. Certamente a aperfeiçoa, mas nunca age sem ela. Então, podemos dizer que a vida humana, em sua realidade concreta e em sua totalidade, representa a condição básica para o desenrolar do itinerário vocacional. A mística de todo animador ou animadora vocacional inclui a experiência de ser colaborador da Trindade para que os vocacionados e vocacionadas cheguem, de fato, à liberdade e à verdadeira libertação. Para quem faz animação vocacional, a vida de comunhão com Deus passa pelo conhecimento e pela percepção da vida concreta daqueles e daquelas que são acompanhados no processo de discernimento vocacional. Trata-se, pois, de uma mística encarnada, respeitosa de cada pessoa, da história de cada um e de cada uma. Mística que respeita ritmo de crescimento dos seres humanos, conforme as capacidades, os valores e dons recebidos do Criador. Mas será também uma mística exigente, que, embora não aceitando ilusões, saberá estimular o vocacionado e a vocacionada na direção do ideal, da busca da perfeição e do melhor, conforme a identidade da vida cristã. Uma mística que se contentasse do pouco e tendesse ao medíocre formaria “viciados”, gente dopada e preguiçosa, e não pessoas corajosas e decididas, capazes de contribuir para o desenvolvimento da comunidade cristã e para transformação do mundo. Logo, os animadores e animadoras vocacionais precisam de uma mística que os torne pessoas realmente conduzidas pelo Espírito, capazes de entrar em diálogo com Aquele que é a fonte da liberdade. Precisamos de uma mística que tenha como dinamismo a força do amor. Isso porque a arte de acompanhar uma pessoa vocacionada exige a experiência do amor, a capacidade de amar. A capacidade de amar é, com efeito, capaz de ir além do limiar imediato dos eventos, como uma lente de aumento ou um microscópio, fazendo intuir horizontes, de outra forma imperceptíveis. A experiência mística faz o animador ou animadora vocacional propor sempre o ideal (cf. Mt 5,48), mas sem tirar os pés do chão da realidade (cf. At 1,10-11), prestando bastante atenção aos “sinais dos tempos” (cf. Mc 16,1-4; Lc 12,54-57). A animação vocacional e o acompanhamento são atividades “inteligentes”, isto é, fazem parte daquela arte de “ler por dentro”, coisa que só os místicos sabem fazer muito bem. Sem mística, corremos o risco de nos distanciar dos critérios divinos. E “aqui não se trata daquilo que os homens vêem: os homens vêem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração” (cf.1Sm 16,7c). Na animação vocacional, é preciso “ver o coração”, ou seja, o que não aparece, o que está escondido, esquecido, abandonado. É perigoso e pouco divino olhar apenas para a aparência (cf. 1Sm 16,7a)! E a arte de ser intérprete, de ser mediador, de mergulhar na situação concreta e real do ser humano só é possível quando se cultiva a experiência de aliança com Deus, de profunda intimidade com a Trindade. Só é possível quando está profundamente relacionada com a arte de amar. A arte de chamar, de vocacionar, supõe o conhecimento, a experiência de profunda intimidade com a Amada Trindade, pois as veredas do itinerário vocacional são as veredas do amor, passam pelos caminhos do Dileto. Dessa mística, brota uma conseqüência muito séria para o serviço de animação vocacional. Não se fará a animação vocacional visando em primeiro lugar às necessidade da instituição eclesiástica, mas o projeto de amor que a Trindade tem para cada pessoa. A preocupação será ajudar o vocacionado ou a vocacionada a encontrar o caminho certo na direção da vocação universal à santidade (cf. Ef 1,4-5). A coisa mais importante será educar-se na arte de amar, pois a capacidade de amar e a percepção do amor são como que os alicerces da oblatividade requerida pela decisão em favor de uma vocação específica. A meta da animação vocacional é ajudar os irmãos e irmãs a ser “verdadeiramente livres” (cf. Gl 5,1). A mística ajudará a “recuperar o autêntico sentido de vocação e ministério que às vezes é compreendido numa perspectiva funcionalista”. Na animação vocacional, permeada pelo dinamismo da mística, seremos capazes de ver em primeiro lugar “as necessidades de Deus”, de seu projeto de amor para cada ser humano. Quando se deixa de lado a perspectiva funcionalista, utilitarista, cultiva-se um respeito profundo pela pessoa humana e por sua vocação. Não podemos nos aproximar dela sem reverência e sem respeito. A mística nos faz descobrir que a Trindade não fixou confins nem limites a quem ela chamou, mas cada pessoa permanece uma imensa possibilidade, sempre aberta a novos horizontes e a novos dinamismos. Para chegar a esse dinamismo, a mística do animador e da animadora vocacional precisa ter como modelo sempre e somente a pessoa de Jesus Cristo (cf. 1Cor 2,2).E, como referenciais para o seguimento, apenas as exigências do Reino (cf. Mt 10,34-39). Cristo deve ser contemplado como ideal de vocacionado e de animador. Como Filho que acolhe a vontade do Pai, Jesus se apresenta como referência para todos aqueles e aquelas que desejam responder com prontidão ao chamado divino. Como Mestre que sai ao encontro dos discípulos e discípulas, ele se torna o paradigma de todo animador e animadora vocacional. Para que tudo isso aconteça, é indispensável uma vida de intimidade com o Filho, a qual nos permita assimilar seus sentimentos e suas atitudes. Para chegar a essa comunhão com o filho, precisamos ser conduzidos “pelas correntes da graça, sob a ação do sopro do Espírito Santo”. Somente se olharmos para o Cristo encarnado, descobriremos o caminho e a pedagogia que a própria Trindade escolheu para se aproximar e para se encontrar com a pessoa humana. Só a mística da encarnação faz da animação vocacional uma atividade revestida de muita esperança, uma vez que ela nos dá a certeza de que a Trindade não deixará fracassar aquela atividade da qual somos apenas simples colaboradores. A mística da “divina união” é essencialmente peneumatológica, isto é, marcada pelas moções do Espírito do Pai e do Filho. 2. Dimensão Teológica O cultivo da mística como comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs supõe uma ação da Trindade, colocando a pessoa em condições de cultivar relacionamentos profundos e verdadeiros. O ser humano carrega dentro de si uma marca indelével: uma vocação para a solidariedade e para o encontro com os demais. “Não é bom para o homem ficar sozinho” (Gn 2,18). Vocação e relação são dois aspectos de uma mesma realidade: viver quer dizer ser chamados, e chamados por um tu. O animador e a animadora vocacional vivem uma intensa experiência mística quando, saindo do encontro com a Trindade, se deixam conduzir na direção do encontro com as demais pessoas. Não existe, portanto, uma mística que seja afastamento, distanciamento da comunhão e do relacionamento. Não existe uma mística individualista. Sendo Deus uma comunidade de três Pessoas e não um simples indivíduo, Ele quer que saiamos do êxtase para irmos em busca de nossos semelhantes, especialmente de quem mais está sofrendo (cf Mt 17,14). Sem a companhia de outras pessoas, não podemos gozar da felicidade da companhia da Trindade. A experiência mística só é verdadeira quando pode ser partilhada e, para partilhar, sempre vamos precisar da companhia de pessoas amadas. A experiência mística nos diz que não pode haver “cultura vocacional” sem “cultura relacional”. A fraternidade e a sororidade devem ser consideradas critérios fundamentais no discernimento vocacional. A verdadeira mística leva a pessoa a assumir a vocação como ato de amor a Deus e amor ao próximo (cf. Jo 15,12-17). O animador ou a animadora vêem cada vocacionado ou vocacionada como alguém chamado por Deus para participar do seu mistério de amor (cf. Ef 1,3-12). Infelizmente, quase toda a atividade vocacional na Igreja ainda é realizada “numa perspectiva funcionalista”, isto é, em vista da solução dos problemas imediatos da instituição eclesiástica. Na maioria das vezes, não se busca conhecer o verdadeiro projeto da Trindade para as pessoas. Devido à pressa em buscar candidatos e candidatas para preencher as vagas existentes, termina-se por considerar somente a aparência, o que salta à vista, deixando de lado o coração, ou seja, a interioridade da pessoa, que normalmente não vemos, mas que, sem dúvida, é o mais importante (cf. 1Sm 16,6-7). No final de tudo, favorecemos os medíocres, os carreiristas e aproveitadores. E o povo “paga a conta” dessa nossa irresponsabilidade. Esse tipo de comportamento da animação vocacional é uma denúncia clara da falta de mística, uma vez que toda verdadeira experiência de Deus leva a um relacionamento com as pessoas e busca respeitar o projeto divino para cada ser humano. O animador ou animadora vocacional, quando vive intensamente a experiência mística, busca cuidadosamente ser cooperador ou cooperadora da ação da Trindade. Conseqüentemente, sua atividade vocacional não está voltada em primeiro lugar para o que a instituição eclesial deseja, mas para o que Deus pretende realizar por meio da mediação da comunidade. Quem assume a responsabilidade de fazer animação vocacional não pode esquecer que sua atividade tem como objetivo fundamental ajudar o vocacionado ou a vocacionada a experimentar a “teofania surpreendente” de Deus. Podemos considerar um verdadeiro místico o animador ou a animadora vocacional que permite o prolongamento da vontade de Deus no encontro com os vocacionados e vocacionadas. E faz isso lembrando que as pessoas chamadas não lhe pertencem, nem pertencem à instituição, mas são “propriedades exclusivas” de Deus (cf. 1Pd 2,9). Quando não se permite que isso aconteça, quando se manipula e se direciona de forma intencional a caminhada do vocacionado e da vocacionada, estamos bem distantes de uma autêntica experiência mística. A verdadeira mística do animador e da animadora vocacional é uma profunda sintonia com o projeto da Trindade para depois comunicá-lo a quem está fazendo caminho com ele e com ela. A mística é condição indispensável para a atividade vocacional. Sem ela o trabalho vocacional entra em colapso total. Quando a animação vocacional é feita sem mística é, na verdade, uma busca de si, um ato tremendamente egoísta. Somente a mística é capaz de fazer circular a vida, a teo-graça e o sopro do Espírito, condições básicas para a sobrevivência de vocações realmente autênticas. A mística nos faz ver todos os mistérios – até aquele da nossa vocação – à luz do mistério de Deus, de acordo com sua vontade, seu amor e seu desígnio. Podemos, então, afirmar que a mística do animador e da animadora vocacional é essencialmente mística de comunhão. O serviço de animação vocacional tem como missão ajudar os vocacionados e as vocacionadas a adquirirem uma mística que os leve a perceber que Deus é amor. E, ainda, diz respeito à valorização do vocacionado e da vocacionada. Pois, quem faz animação vocacional a partir de uma mística trinitária sabe que aquele ou aquela que está à sua frente é alguém misterioso, mas, ao mesmo tempo, um ser com um valor insuperável. Russolillo afirma que o animador ou a animadora vocacional deve considerar r o vocacionado ou a vocacionada “um presente da Trindade à Trindade”, isto é, “um dom de Deus a Deus”. Portanto, alguém que não pode ser manipulado, explorado e violentado em sua dignidade. Aos ouvidos do vocacionado ou da vocacionada deverá sempre ressoar a palavra da Trindade: “Eu......... te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). A verdadeira mística afugenta qualquer tentação de desânimo e de medo. Toda atividade vocacional previamente direcionada para um tipo específico não corresponde à iniciativa divina e, portanto, não é feita a partir de uma autêntica experiência mística. Somente a animação e a promoção de todas as vocações é expressão de plena comunhão com a Trindade, de respeito pelo Espírito Santo que quer a diversidade e não a exclusividade. 3. Dimensão Eclesial O cultivo da mística trinitária leva o animador e a animadora vocacional a descobrir que a comunidade eclesial é o lugar de discernimento vocacional. Todo aquele que pretende se afastar dos outros, viver sua vocação de maneira individualista e egoísta não está sintonizado com a ótica divina. Não é possível responder ao chamado de Deus a não ser em comunidade. Se a espiritualidade é um “entrelaçamento da nossa realidade pessoal e comunitária, com a intimidade pessoal e comunitária do próprio Deus”, não pode haver experiência mística que não seja ao mesmo tempo uma experiência eclesial. Vivemos num contexto em que o individualismo exacerbado toma conta das pessoas. Por essa razão, há sempre a tentação de querer viver a experiência do chamado divino de forma isolada, independente e de maneira auto-suficiente. Portanto, a perspectiva eclesial da mística é indispensável para a animação vocacional de nossos dias. O cultivo da mística vocacional exige do animador e da animadora vocacional e, também, do vocacionado e vocacionada experiências concretas de participação na vida da comunidade. Os vocacionados e vocacionadas, no processo de discernimento vocacional, precisam ser envolvidos por dinamismos que permitam chegar ao encontro com Deus na comunidade e a partir da comunidade. Entre os elementos que compõem a dimensão eclesial da mística, podemos mencionar a reciprocidade, a honestidade, a fidelidade à palavra dada, a amizade, a capacidade de perdoar e de receber perdão, a vivência equilibrada da afetividade e a sinceridade. Sem esses elementos, não poderá haver mística, mas apenas evasão, espiritualismo de fuga, intimismo espiritual e superficialidade no encontro com Deus. Sem passar pelo “limiar” da comunidade, não é possível entrar na intimidade da comunhão com a Divina Trindade. Somente uma Igreja Povo de Deus, rica na diversidade, articulada e unida pela mesma dignidade de todos os seus membros, pode se posicionar como ambiente favorável a uma autêntica mística vocacional. O referencial da mística vocacional é o próprio Jesus Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, que veio ao mundo e se encarnou, mostrando-nos assim como deve ser nossa experiência de relacionamento com Deus. O relacionamento do Filho com o Pai é realizado “sob a ação do Espírito Santo” (cf. Lc 10,21). Logo, nossa comunhão com a Trindade é uma relação suscitada pelo Paráclito. Uma experiência de Deus que não fosse também uma experiência de seu espírito seria totalmente incompleta. A mística para ser verdadeira deverá ser uma profunda vida de intimidade e de comunhão com a terceira pessoa da Trindade. O caminho que nos faz comungar com o Espírito é a caridade, o amor ao próximo. Sem capacidade de acolhimento e de abertura, sem relacionamentos humanos verdadeiros, a mística permanece superficial e a pessoa não será capaz de experimentar a gozosa e amorosa presença do mistério divino. Uma mística sem amor é pura “massagem espiritual”, isto é, um tipo de espiritualismo sem compromisso com Deus e com a história e que serve apenas para alimentar a egolatria, o orgulho, a vaidade e a ambição das pessoas. É uma mística que não torna real a encarnação do Filho e não contribui para a descoberta do sentido da vida. A mística do animador e da animadora vocacional é a mística da Igreja “esposa do Filho de Deus”. Nela, cada pessoa humana, por meio da comunhão com o Filho, pode viver sua relação com a Trindade. O modo de nos relacionarmos com Deus é diferente, variando de pessoa para pessoa. Porém, tudo se dá na “caridade filial”, ou seja, no encontro com o Filho Jesus. Nesse contexto, podemos invocar também a pessoa de Maria, como outro paradigma. Maria se torna para nós modelo perfeito de pessoa que cultivou uma intensa espiritualidade, uma intensa comunhão com a Trindade (cf. Conc. Vat. II - Apostolicam Actuositatem, 4). Maria nos ajuda a compreender e a viver melhor a eclesialidade de nossa espiritualidade. Para o animador e a animadora vocacional, Maria é o modelo de pessoa que cultiva a mística da solidariedade. Em Maria encontramos aquele dúplice elemento que deve caracterizar toda verdadeira experiência mística: a abertura para o projeto divino e a participação plena na vida da comunidade, sobretudo na coragem de estar ao lado de todos os excluídos e excluídas da nossa sociedade. Maria é nossa companheira, pois nenhuma outra criatura humana viveu tão intensamente a experiência mística. A mística do animador e da animadora vocacional é a mística da pequenez, da simplicidade, sabendo que tal pequenez será a epifania do Reino. Uma mística da encarnação, cuja dinâmica é o chamado a misturar-se com os outros, num total escondimento. A Igreja das pompas, triunfalista, dos abotoados e fardados, dos cavalheiros e arautos, dos turíbulos de ouro e das ricas alfaias não é a Igreja do “recém-nascido” (cf. Lc 2,12) encontrado na manjedoura de Belém e que acabou sendo crucificado como um maldito (cf. Gl 3,13). A mística do animador e da animadora vocacional deve ajudá-los a ser apenas “parábolas” do Reino. Por isso, ela requer bastante vigilância. Algo que nos ajude a perceber a chegada do Senhor no espaço e no tempo que não se espera. Trata-se de estar sempre pronto ou pronta para acolher as surpresas de Deus (cf. Mt 25,1-13). Pode-se então, falar de mística da multiplicação dos talentos recebidos (cf. Mt 25,14-30) e de mística da caridade e do serviço, com uma atenção especial à presença do Senhor no rosto dos excluídos e das excluídas (cf. Mt 25,31-46). III. Conclusão Ao se despedir dos seus discípulos e discípulas, no momento de sua ascensão ao céu, Jesus pede que eles sejam suas testemunhas por toda a terra (cf. At 1,8). Por isso é indispensável encontrar uma espiritualidade profunda. Nós, cristãos católicos, costumamos ser muito superficiais em nosso relacionamento com Deus. Não fomos educados para uma intensa experiência de comunhão com a Trindade. Falta-nos algo profundo mais profundo, pessoal e dinâmico; algo que nos anime e nos faça prosseguir com coragem e audácia na direção do Reino e de sua justiça. Precisamos despertar cristãos e cristãs capazes de comunicar paixão, entusiasmo e alegria pelo Reino. Pessoas que, pelo que são e pelo modo como se comportam, são capazes de dizer para as demais que o Pai, pela graça de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, nos chama para o serviço à humanidade. Há muito a dizer sobre espiritualidade e mística, porém é muito importante que façamos a experiência espiritual do Deus da vida a partir das pequenas coisas, pequenos gestos do dia-a-dia... IV. Bibliografias a) OLIVEIRA, J. L. M. de, Na órbita de Deus – Espiritualidade do animador e da animadora vocacional, São Paulo, Edições Loyola, 2004 (texto base do trabalho) b) _________, Evangelho da vocação. Dimensão vocacional da evangelização, São Paulo, IPV/Loyola, 2003. c) CROCOLI, Aldir, frei Capuchinho – Espiritualidade e Formação Franciscana. (Apostila) Outras indicações: TUOTI, Frank. X., Por que não ser místico?: um convite irresistível para experienciar a presença de Deus – São Paulo: Paulus, 1997. GRÜN, Anselm, GERHARD, Riedl – Mística e eros: Curitiba – Lyra Editorial, 2002.

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