sexta-feira, 12 de outubro de 2007

PROGRAMA FORMATIVO PARA VOCACIONADOS


Objetivo:
Favorecer o acompanhamento personalizado dos vocacionados à vida religiosa franciscano-capuchinha, para que possam conscientemente avançar para a etapa seguinte no processo formativo inicial.

Objetivos Específicos:
- Acompanhar o vocacionado de maneira personalizada para que possa fazer discernimento vocacional;
- Ser avaliado pela fraternidade no seu processo formativo inicial;
- Ser acompanhado pessoalmente por um frei da fraternidade;
- Fazer experiência pastoral junto às comunidades;
- Trabalhar diariamente de acordo com a orientação frei acompanhante;
- Ter presente os seguintes pontos na orientação: vida de oração, fraterna, trabalho, contato com o povo, disponibilidade, estudo, lazer, integração ao meio onde vive;

Ações
- Leitura de livros franciscanos (Cf. página 40 Diretório de Formação Inicial);
- Dois retiros espirituais durante em 2007;
- Estágio pastoral na paróquia: pastorais, comunidades,...
- Trabalhos domésticos e outros justos de acordo com a necessidade da fraternidade;
- Tempo para lazer semanal....
- Oração em fraternidade, favorecendo tempo para os dois rezarem juntos;
- Avaliação no final do ano pela fraternidade;
- Participação da Eucaristia sempre que há oportunidade na comunidade paroquial e programa dos freis;
- Outros elementos importantes no programa formativo poderão ser acrescentados conforme a necessidade.

Este programa deverá ser colocado em prática a partir de 15 de setembro de 2007.

Mística do animador(a) Vocacional

I. Introdução O cultivo da espiritualidade como um projeto global de vida é uma necessidade e um apelo nos dias de hoje. O homem é ser espiritual por natureza. Essa dimensão não pode ser esquecida quando se trata da pessoa humana. Aqui tentaremos abordar a mística do animador e da animadora vocacional como elemento imprescindível para o serviço de animação vocacional. O animador ou a animadora vocacional antes de evangelizar precisa se deixar evangelizar pela ação do Espírito Santo. Somente quem faz a experiência pessoal de um Deus amor-comunhão está em plena condição de evangelizar. Pois, entendemos o serviço de animação vocacional, como uma ação evangelizadora da nossa Igreja. Deixe teu coração transbordar daquele amor que bebeste da fonte que é Deus Trindade, comunhão de amor. II. Compreendendo melhor Espiritualidade vem de Espírito – Ruah (sopro). Espírito é força que nos convida a viver, de corpo e alma. É o que há de mais profundo e verdadeiro em nós. Espiritualidade é o conjunto das aspirações e das convicções que animam interiormente os cristãos em sua relação com Deus. Espírito é a força, é a mística que nos faz buscar vida em abundância (Jo 10,10). Mística é a seiva, é o princípio da vida, é a fé feita experiência. Espiritualidade é um jeito de se posicionar na vida. Toda autêntica espiritualidade cristã é um caminho de busca e de encontro com Deus neste mundo. Na visão cristã, a espiritualidade é a orientação consciente da vida da pessoa ou de um grupo humano em relação de comunhão com os outros e com o Deus de Jesus Cristo, sob a ação do Espírito Santo. A espiritualidade cristã é, antes de tudo, um dom do Espírito. Ele é o mistagogo do itinerário espiritual de cada pessoa. Ele cava dentro de nós a sede de Deus (Jo 4,7) e ao mesmo tempo sacia nossa sede, nos mergulhando na Fonte Trinitária. A espiritualidade não se confunde com oração, meditação, contemplação, práticas de piedade, muito embora ela integre e se alimente dessas dimensões. Uma pessoa pode rezar muito e não ter uma espiritualidade que ilumine, alimente e dê sentido ao seu itinerário espiritual e à sua vida. Há muito a dizer sobre espiritualidade, porém é muito importante que façamos a experiência espiritual do Deus da vida a partir das pequenas coisas, pequenos gestos do dia-a-dia... A palavra “mística” é originada de Mystikós, de mistério no sentido de uma realidade inesgotável ou jamais abarcável no seu todo. Como essa realidade é identificável com Deus, a mística acabou infelizmente sendo vista como o ponto culminante do itinerário espiritual e atribuída apenas aos momentos de êxtase, quando a pessoa está totalmente absorta em Deus, como que possuída por Ele. Por um lado isso é verdadeiro. Todavia, a mística precisa ser pensada também de outro ponto de vista. Não só como ponto de culminância, mas também como a capacidade para estabelecer uma comunhão com Deus (consigo mesmo, com os outros) e com a realidade cósmica. Portanto, a mística está presente na própria natureza humana, no profundo de toda a pessoa. Como diz o salmista: “Em vossa luz contemplamos a luz” (Sl 36,9). A união mística é um espaço e um estágio a ser galgado. É uma conquista a ser feita. Por isso é muito importante na nossa organização existencial reservar um tempo exclusivo para cultivar a comunhão com Deus. A Deus se conhece “experimentando-o”, pela convivência. Portanto, devemos, por necessidade, cultivar nossa vida de oração como tempo dado exclusivamente a Deus, apenas por razões de fé e amizade. Isso é algo fundamental e insubstituível. Mostraremos que no âmbito da mística há três dimensões: a antropológica, a teológica e a eclesial. Na antropológica aparece uma visão de pessoa humana que se comunica com Deus. Na teológica, revela-se o Deus que se manifesta à humanidade como comunidade de pessoas (Trindade). Na eclesial, é possível identificar o animador ou a animadora vocacional como alguém inserido na Igreja. A espiritualidade verdadeira brota de uma experiência de comunidade. 1. Dimensão Antropológica A mística do animador e da animadora vocacional consiste, em primeiro lugar, naquela capacidade de fazer animação vocacional tendo presente o valor da pessoa humana (cf. Sl 8,6-9), imagem e semelhança da Trindade (cf. Gn 1,26-27). A experiência de comunhão com a Trindade se dá a partir do encontro com os vocacionados e vocacionadas. A partilha da própria vida com aqueles e aquelas que buscam descobrir o sentido da vida e do seguimento de Cristo faz-se também itinerário para uma profunda mística. Com tal afirmação, não pretendemos negar a importância da iniciativa divina e da vocação de quem faz animação vocacional. Ninguém poderia experimentar a comunhão com a Trindade se não tivesse sido atraído pelo amor e pela ternura do Pai (cf. Jo 6,44). Para envolver-se de corpo e alma no trabalho vocacional, é necessário ter vocação para trabalhar com as vocações. Todavia, para que a animação vocacional possa ser vista como serviço (cf. Jo 13,1-17), especialmente aos mais pobres e pequenos, é indispensável enxergar o Deus invisível nos irmãos e irmãs que acompanhamos por meio de nosso serviço de animação vocacional (cf. 1Jo 4,20). Para chegar ao maravilhso, para abraçar a fragância do amor trinitário, vamos sempre precisar passar pelo odor, pelo perfume do carinho e da ternura do amor humano. Por isso, somente se amamos os vocacionados e vocacionadas é que experimentaremos o toque da mão divina e ouviremos o palpitar do coração da Trindade. Sem amor humano, não se pode chegar a Deus. No encontro com os vocacionados e as vocacionadas, o animador ou a animadora deverá perceber sempre a ação do Espírito Santo, do qual são templos (cf. Rm 8,9.14-16; 1Cor 3,16). Somente quando se faz esse tipo de experiência é que a atividade vocacional se torna atraente e dinâmica. A circulação da vida divina, a centelha da vocação humana e cristã, não se propaga de qualquer jeito. Se a resposta vocacional é um caminho místico, uma espiritualidade, isso quer dizer que ela depende da ajuda de pessoas que estão certas da presença do mistério trinitário em cada ser humano. Quando o animador ou a animadora vocacional percorre essa estrada, consegue levar consigo muitos irmãos e irmãs. Esta reflexão feita acima nos leva a pensar sobre a importância da escolha de quem vai fazer animação vocacional. Infelizmente, na quase totalidade dos casos, as pessoas são “forçadas” a fazer o trabalho vocacional. Normalmente, elas são pegas de surpresa pelos bispos, pelos párocos e pelos superiores eclesiásticos, sem muito critério, sem discernimento sério. Esse processo de seleção obedece praticamente à necessidade imediata da instituição. Por isso, termina-se por colocar à frente da animação vocacional quem, muitas vezes, não possui vocação, dom, carisma para tal serviço. Por essa razão, não conseguirá fazer dessa experiência também um itinerário místico, um caminho de espiritualidade. Sem mística, qualquer atividade evangelizadora se evapora, se torna ilusória e fica apenas na boa intenção. A animação vocacional sem mística se torna “uma prática sem espírito”. E uma coisa sem espírito seria um cadáver, mesmo que estivesse acompanhada das mais sofisticadas técnicas, dos instrumentos de última geração e de um poderoso marketing. Seria um corpo colocado em um caixão luxuoso! Quando a animação vocacional é feita com base em uma autêntica experiência mística, o resultado é outro. Isso porque “a mística cristã possui um sentido mais profundo: transforma e melhora qualitativamente o ideal e o compromisso por um amor maior”. Quando há o cultivo da mística cristã, a animação vocacional passa a ser um serviço de liberdade e de libertação (cf. Gl 5,1-15). Nesse caso, o serviço de animação vocacional não se destina logo de imediato ao recrutamento de candidatos e candidatas para as instituições eclesiásticas. Seu objetivo prioritário será fazer circular a vida plena, a qual é condição primeira para o cultivo das vocações específicas. É claro que no projeto de Deus à vida humana plena coincide com o chamado para o seguimento de Jesus e a vocação universal à santidade (cf. !,3-14). Criação, redenção e santificação não são momentos justapostos, mas três dimensões simultâneas da mesma realidade. A teologia afirma que a ação da graça de Deus não elimina, mas supõe sempre a natureza humana. Certamente a aperfeiçoa, mas nunca age sem ela. Então, podemos dizer que a vida humana, em sua realidade concreta e em sua totalidade, representa a condição básica para o desenrolar do itinerário vocacional. A mística de todo animador ou animadora vocacional inclui a experiência de ser colaborador da Trindade para que os vocacionados e vocacionadas cheguem, de fato, à liberdade e à verdadeira libertação. Para quem faz animação vocacional, a vida de comunhão com Deus passa pelo conhecimento e pela percepção da vida concreta daqueles e daquelas que são acompanhados no processo de discernimento vocacional. Trata-se, pois, de uma mística encarnada, respeitosa de cada pessoa, da história de cada um e de cada uma. Mística que respeita ritmo de crescimento dos seres humanos, conforme as capacidades, os valores e dons recebidos do Criador. Mas será também uma mística exigente, que, embora não aceitando ilusões, saberá estimular o vocacionado e a vocacionada na direção do ideal, da busca da perfeição e do melhor, conforme a identidade da vida cristã. Uma mística que se contentasse do pouco e tendesse ao medíocre formaria “viciados”, gente dopada e preguiçosa, e não pessoas corajosas e decididas, capazes de contribuir para o desenvolvimento da comunidade cristã e para transformação do mundo. Logo, os animadores e animadoras vocacionais precisam de uma mística que os torne pessoas realmente conduzidas pelo Espírito, capazes de entrar em diálogo com Aquele que é a fonte da liberdade. Precisamos de uma mística que tenha como dinamismo a força do amor. Isso porque a arte de acompanhar uma pessoa vocacionada exige a experiência do amor, a capacidade de amar. A capacidade de amar é, com efeito, capaz de ir além do limiar imediato dos eventos, como uma lente de aumento ou um microscópio, fazendo intuir horizontes, de outra forma imperceptíveis. A experiência mística faz o animador ou animadora vocacional propor sempre o ideal (cf. Mt 5,48), mas sem tirar os pés do chão da realidade (cf. At 1,10-11), prestando bastante atenção aos “sinais dos tempos” (cf. Mc 16,1-4; Lc 12,54-57). A animação vocacional e o acompanhamento são atividades “inteligentes”, isto é, fazem parte daquela arte de “ler por dentro”, coisa que só os místicos sabem fazer muito bem. Sem mística, corremos o risco de nos distanciar dos critérios divinos. E “aqui não se trata daquilo que os homens vêem: os homens vêem aquilo que salta à vista, mas o Senhor vê o coração” (cf.1Sm 16,7c). Na animação vocacional, é preciso “ver o coração”, ou seja, o que não aparece, o que está escondido, esquecido, abandonado. É perigoso e pouco divino olhar apenas para a aparência (cf. 1Sm 16,7a)! E a arte de ser intérprete, de ser mediador, de mergulhar na situação concreta e real do ser humano só é possível quando se cultiva a experiência de aliança com Deus, de profunda intimidade com a Trindade. Só é possível quando está profundamente relacionada com a arte de amar. A arte de chamar, de vocacionar, supõe o conhecimento, a experiência de profunda intimidade com a Amada Trindade, pois as veredas do itinerário vocacional são as veredas do amor, passam pelos caminhos do Dileto. Dessa mística, brota uma conseqüência muito séria para o serviço de animação vocacional. Não se fará a animação vocacional visando em primeiro lugar às necessidade da instituição eclesiástica, mas o projeto de amor que a Trindade tem para cada pessoa. A preocupação será ajudar o vocacionado ou a vocacionada a encontrar o caminho certo na direção da vocação universal à santidade (cf. Ef 1,4-5). A coisa mais importante será educar-se na arte de amar, pois a capacidade de amar e a percepção do amor são como que os alicerces da oblatividade requerida pela decisão em favor de uma vocação específica. A meta da animação vocacional é ajudar os irmãos e irmãs a ser “verdadeiramente livres” (cf. Gl 5,1). A mística ajudará a “recuperar o autêntico sentido de vocação e ministério que às vezes é compreendido numa perspectiva funcionalista”. Na animação vocacional, permeada pelo dinamismo da mística, seremos capazes de ver em primeiro lugar “as necessidades de Deus”, de seu projeto de amor para cada ser humano. Quando se deixa de lado a perspectiva funcionalista, utilitarista, cultiva-se um respeito profundo pela pessoa humana e por sua vocação. Não podemos nos aproximar dela sem reverência e sem respeito. A mística nos faz descobrir que a Trindade não fixou confins nem limites a quem ela chamou, mas cada pessoa permanece uma imensa possibilidade, sempre aberta a novos horizontes e a novos dinamismos. Para chegar a esse dinamismo, a mística do animador e da animadora vocacional precisa ter como modelo sempre e somente a pessoa de Jesus Cristo (cf. 1Cor 2,2).E, como referenciais para o seguimento, apenas as exigências do Reino (cf. Mt 10,34-39). Cristo deve ser contemplado como ideal de vocacionado e de animador. Como Filho que acolhe a vontade do Pai, Jesus se apresenta como referência para todos aqueles e aquelas que desejam responder com prontidão ao chamado divino. Como Mestre que sai ao encontro dos discípulos e discípulas, ele se torna o paradigma de todo animador e animadora vocacional. Para que tudo isso aconteça, é indispensável uma vida de intimidade com o Filho, a qual nos permita assimilar seus sentimentos e suas atitudes. Para chegar a essa comunhão com o filho, precisamos ser conduzidos “pelas correntes da graça, sob a ação do sopro do Espírito Santo”. Somente se olharmos para o Cristo encarnado, descobriremos o caminho e a pedagogia que a própria Trindade escolheu para se aproximar e para se encontrar com a pessoa humana. Só a mística da encarnação faz da animação vocacional uma atividade revestida de muita esperança, uma vez que ela nos dá a certeza de que a Trindade não deixará fracassar aquela atividade da qual somos apenas simples colaboradores. A mística da “divina união” é essencialmente peneumatológica, isto é, marcada pelas moções do Espírito do Pai e do Filho. 2. Dimensão Teológica O cultivo da mística como comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs supõe uma ação da Trindade, colocando a pessoa em condições de cultivar relacionamentos profundos e verdadeiros. O ser humano carrega dentro de si uma marca indelével: uma vocação para a solidariedade e para o encontro com os demais. “Não é bom para o homem ficar sozinho” (Gn 2,18). Vocação e relação são dois aspectos de uma mesma realidade: viver quer dizer ser chamados, e chamados por um tu. O animador e a animadora vocacional vivem uma intensa experiência mística quando, saindo do encontro com a Trindade, se deixam conduzir na direção do encontro com as demais pessoas. Não existe, portanto, uma mística que seja afastamento, distanciamento da comunhão e do relacionamento. Não existe uma mística individualista. Sendo Deus uma comunidade de três Pessoas e não um simples indivíduo, Ele quer que saiamos do êxtase para irmos em busca de nossos semelhantes, especialmente de quem mais está sofrendo (cf Mt 17,14). Sem a companhia de outras pessoas, não podemos gozar da felicidade da companhia da Trindade. A experiência mística só é verdadeira quando pode ser partilhada e, para partilhar, sempre vamos precisar da companhia de pessoas amadas. A experiência mística nos diz que não pode haver “cultura vocacional” sem “cultura relacional”. A fraternidade e a sororidade devem ser consideradas critérios fundamentais no discernimento vocacional. A verdadeira mística leva a pessoa a assumir a vocação como ato de amor a Deus e amor ao próximo (cf. Jo 15,12-17). O animador ou a animadora vêem cada vocacionado ou vocacionada como alguém chamado por Deus para participar do seu mistério de amor (cf. Ef 1,3-12). Infelizmente, quase toda a atividade vocacional na Igreja ainda é realizada “numa perspectiva funcionalista”, isto é, em vista da solução dos problemas imediatos da instituição eclesiástica. Na maioria das vezes, não se busca conhecer o verdadeiro projeto da Trindade para as pessoas. Devido à pressa em buscar candidatos e candidatas para preencher as vagas existentes, termina-se por considerar somente a aparência, o que salta à vista, deixando de lado o coração, ou seja, a interioridade da pessoa, que normalmente não vemos, mas que, sem dúvida, é o mais importante (cf. 1Sm 16,6-7). No final de tudo, favorecemos os medíocres, os carreiristas e aproveitadores. E o povo “paga a conta” dessa nossa irresponsabilidade. Esse tipo de comportamento da animação vocacional é uma denúncia clara da falta de mística, uma vez que toda verdadeira experiência de Deus leva a um relacionamento com as pessoas e busca respeitar o projeto divino para cada ser humano. O animador ou animadora vocacional, quando vive intensamente a experiência mística, busca cuidadosamente ser cooperador ou cooperadora da ação da Trindade. Conseqüentemente, sua atividade vocacional não está voltada em primeiro lugar para o que a instituição eclesial deseja, mas para o que Deus pretende realizar por meio da mediação da comunidade. Quem assume a responsabilidade de fazer animação vocacional não pode esquecer que sua atividade tem como objetivo fundamental ajudar o vocacionado ou a vocacionada a experimentar a “teofania surpreendente” de Deus. Podemos considerar um verdadeiro místico o animador ou a animadora vocacional que permite o prolongamento da vontade de Deus no encontro com os vocacionados e vocacionadas. E faz isso lembrando que as pessoas chamadas não lhe pertencem, nem pertencem à instituição, mas são “propriedades exclusivas” de Deus (cf. 1Pd 2,9). Quando não se permite que isso aconteça, quando se manipula e se direciona de forma intencional a caminhada do vocacionado e da vocacionada, estamos bem distantes de uma autêntica experiência mística. A verdadeira mística do animador e da animadora vocacional é uma profunda sintonia com o projeto da Trindade para depois comunicá-lo a quem está fazendo caminho com ele e com ela. A mística é condição indispensável para a atividade vocacional. Sem ela o trabalho vocacional entra em colapso total. Quando a animação vocacional é feita sem mística é, na verdade, uma busca de si, um ato tremendamente egoísta. Somente a mística é capaz de fazer circular a vida, a teo-graça e o sopro do Espírito, condições básicas para a sobrevivência de vocações realmente autênticas. A mística nos faz ver todos os mistérios – até aquele da nossa vocação – à luz do mistério de Deus, de acordo com sua vontade, seu amor e seu desígnio. Podemos, então, afirmar que a mística do animador e da animadora vocacional é essencialmente mística de comunhão. O serviço de animação vocacional tem como missão ajudar os vocacionados e as vocacionadas a adquirirem uma mística que os leve a perceber que Deus é amor. E, ainda, diz respeito à valorização do vocacionado e da vocacionada. Pois, quem faz animação vocacional a partir de uma mística trinitária sabe que aquele ou aquela que está à sua frente é alguém misterioso, mas, ao mesmo tempo, um ser com um valor insuperável. Russolillo afirma que o animador ou a animadora vocacional deve considerar r o vocacionado ou a vocacionada “um presente da Trindade à Trindade”, isto é, “um dom de Deus a Deus”. Portanto, alguém que não pode ser manipulado, explorado e violentado em sua dignidade. Aos ouvidos do vocacionado ou da vocacionada deverá sempre ressoar a palavra da Trindade: “Eu......... te chamei pelo nome, tu és meu” (Is 43,1). A verdadeira mística afugenta qualquer tentação de desânimo e de medo. Toda atividade vocacional previamente direcionada para um tipo específico não corresponde à iniciativa divina e, portanto, não é feita a partir de uma autêntica experiência mística. Somente a animação e a promoção de todas as vocações é expressão de plena comunhão com a Trindade, de respeito pelo Espírito Santo que quer a diversidade e não a exclusividade. 3. Dimensão Eclesial O cultivo da mística trinitária leva o animador e a animadora vocacional a descobrir que a comunidade eclesial é o lugar de discernimento vocacional. Todo aquele que pretende se afastar dos outros, viver sua vocação de maneira individualista e egoísta não está sintonizado com a ótica divina. Não é possível responder ao chamado de Deus a não ser em comunidade. Se a espiritualidade é um “entrelaçamento da nossa realidade pessoal e comunitária, com a intimidade pessoal e comunitária do próprio Deus”, não pode haver experiência mística que não seja ao mesmo tempo uma experiência eclesial. Vivemos num contexto em que o individualismo exacerbado toma conta das pessoas. Por essa razão, há sempre a tentação de querer viver a experiência do chamado divino de forma isolada, independente e de maneira auto-suficiente. Portanto, a perspectiva eclesial da mística é indispensável para a animação vocacional de nossos dias. O cultivo da mística vocacional exige do animador e da animadora vocacional e, também, do vocacionado e vocacionada experiências concretas de participação na vida da comunidade. Os vocacionados e vocacionadas, no processo de discernimento vocacional, precisam ser envolvidos por dinamismos que permitam chegar ao encontro com Deus na comunidade e a partir da comunidade. Entre os elementos que compõem a dimensão eclesial da mística, podemos mencionar a reciprocidade, a honestidade, a fidelidade à palavra dada, a amizade, a capacidade de perdoar e de receber perdão, a vivência equilibrada da afetividade e a sinceridade. Sem esses elementos, não poderá haver mística, mas apenas evasão, espiritualismo de fuga, intimismo espiritual e superficialidade no encontro com Deus. Sem passar pelo “limiar” da comunidade, não é possível entrar na intimidade da comunhão com a Divina Trindade. Somente uma Igreja Povo de Deus, rica na diversidade, articulada e unida pela mesma dignidade de todos os seus membros, pode se posicionar como ambiente favorável a uma autêntica mística vocacional. O referencial da mística vocacional é o próprio Jesus Cristo, segunda pessoa da Santíssima Trindade, que veio ao mundo e se encarnou, mostrando-nos assim como deve ser nossa experiência de relacionamento com Deus. O relacionamento do Filho com o Pai é realizado “sob a ação do Espírito Santo” (cf. Lc 10,21). Logo, nossa comunhão com a Trindade é uma relação suscitada pelo Paráclito. Uma experiência de Deus que não fosse também uma experiência de seu espírito seria totalmente incompleta. A mística para ser verdadeira deverá ser uma profunda vida de intimidade e de comunhão com a terceira pessoa da Trindade. O caminho que nos faz comungar com o Espírito é a caridade, o amor ao próximo. Sem capacidade de acolhimento e de abertura, sem relacionamentos humanos verdadeiros, a mística permanece superficial e a pessoa não será capaz de experimentar a gozosa e amorosa presença do mistério divino. Uma mística sem amor é pura “massagem espiritual”, isto é, um tipo de espiritualismo sem compromisso com Deus e com a história e que serve apenas para alimentar a egolatria, o orgulho, a vaidade e a ambição das pessoas. É uma mística que não torna real a encarnação do Filho e não contribui para a descoberta do sentido da vida. A mística do animador e da animadora vocacional é a mística da Igreja “esposa do Filho de Deus”. Nela, cada pessoa humana, por meio da comunhão com o Filho, pode viver sua relação com a Trindade. O modo de nos relacionarmos com Deus é diferente, variando de pessoa para pessoa. Porém, tudo se dá na “caridade filial”, ou seja, no encontro com o Filho Jesus. Nesse contexto, podemos invocar também a pessoa de Maria, como outro paradigma. Maria se torna para nós modelo perfeito de pessoa que cultivou uma intensa espiritualidade, uma intensa comunhão com a Trindade (cf. Conc. Vat. II - Apostolicam Actuositatem, 4). Maria nos ajuda a compreender e a viver melhor a eclesialidade de nossa espiritualidade. Para o animador e a animadora vocacional, Maria é o modelo de pessoa que cultiva a mística da solidariedade. Em Maria encontramos aquele dúplice elemento que deve caracterizar toda verdadeira experiência mística: a abertura para o projeto divino e a participação plena na vida da comunidade, sobretudo na coragem de estar ao lado de todos os excluídos e excluídas da nossa sociedade. Maria é nossa companheira, pois nenhuma outra criatura humana viveu tão intensamente a experiência mística. A mística do animador e da animadora vocacional é a mística da pequenez, da simplicidade, sabendo que tal pequenez será a epifania do Reino. Uma mística da encarnação, cuja dinâmica é o chamado a misturar-se com os outros, num total escondimento. A Igreja das pompas, triunfalista, dos abotoados e fardados, dos cavalheiros e arautos, dos turíbulos de ouro e das ricas alfaias não é a Igreja do “recém-nascido” (cf. Lc 2,12) encontrado na manjedoura de Belém e que acabou sendo crucificado como um maldito (cf. Gl 3,13). A mística do animador e da animadora vocacional deve ajudá-los a ser apenas “parábolas” do Reino. Por isso, ela requer bastante vigilância. Algo que nos ajude a perceber a chegada do Senhor no espaço e no tempo que não se espera. Trata-se de estar sempre pronto ou pronta para acolher as surpresas de Deus (cf. Mt 25,1-13). Pode-se então, falar de mística da multiplicação dos talentos recebidos (cf. Mt 25,14-30) e de mística da caridade e do serviço, com uma atenção especial à presença do Senhor no rosto dos excluídos e das excluídas (cf. Mt 25,31-46). III. Conclusão Ao se despedir dos seus discípulos e discípulas, no momento de sua ascensão ao céu, Jesus pede que eles sejam suas testemunhas por toda a terra (cf. At 1,8). Por isso é indispensável encontrar uma espiritualidade profunda. Nós, cristãos católicos, costumamos ser muito superficiais em nosso relacionamento com Deus. Não fomos educados para uma intensa experiência de comunhão com a Trindade. Falta-nos algo profundo mais profundo, pessoal e dinâmico; algo que nos anime e nos faça prosseguir com coragem e audácia na direção do Reino e de sua justiça. Precisamos despertar cristãos e cristãs capazes de comunicar paixão, entusiasmo e alegria pelo Reino. Pessoas que, pelo que são e pelo modo como se comportam, são capazes de dizer para as demais que o Pai, pela graça de Jesus Cristo e na força do Espírito Santo, nos chama para o serviço à humanidade. Há muito a dizer sobre espiritualidade e mística, porém é muito importante que façamos a experiência espiritual do Deus da vida a partir das pequenas coisas, pequenos gestos do dia-a-dia... IV. Bibliografias a) OLIVEIRA, J. L. M. de, Na órbita de Deus – Espiritualidade do animador e da animadora vocacional, São Paulo, Edições Loyola, 2004 (texto base do trabalho) b) _________, Evangelho da vocação. Dimensão vocacional da evangelização, São Paulo, IPV/Loyola, 2003. c) CROCOLI, Aldir, frei Capuchinho – Espiritualidade e Formação Franciscana. (Apostila) Outras indicações: TUOTI, Frank. X., Por que não ser místico?: um convite irresistível para experienciar a presença de Deus – São Paulo: Paulus, 1997. GRÜN, Anselm, GERHARD, Riedl – Mística e eros: Curitiba – Lyra Editorial, 2002.

Serviço de Animação Vocacional e Pastoral Orgânica

PREPARAÇÃO PARA O III CONGRESSO VOCACIONAL – FREIS CAPUCHINHOS PR-SC
13 a 15/10/2006
2º. TEMA PARA ESTUDO



Ao tratar sobre o Serviço de Animação Vocacional e Pastoral Orgânica é necessário ter presente que se está falando de ações da Igreja Povo de Deus. Fala-se essencialmente em “mistério de comunhão, povo de Deus e serviço aos homens” (P. 167).
Igreja é coletividade, é conjunto, é povo (GS 40). Os que se propõe seguir Jesus Cristo buscam “o verdadeiro e único relacionamento na coletividade e Deus”. O amor é sinal visível do seguimento de Jesus Cristo (At 2,42-47; Ijo 4,20-21).
Nesta reflexão, estudo o objetivo é aprofundar sobre o SAV e Pastoral Orgânica na comunidade Igreja. É preciso fundamentar a vivência de Igreja no serviço aos irmãos e irmãs. Através da vivência bem fundamentada, poder-se-á produzir frutos do Reino de Deus. O SAV precisa estar inserido na Pastoral Orgânica para cumprir a sua missão, a razão de sua existência deverá ser clara para os agentes, e a Pastoral Orgânica deverá integrá-lo nas ações pastorais existentes na comunidade local e diocesana.

1. Conceitualização
Para que a reflexão possa produzir frutos é preciso conhecer os conceitos, o significado dos termos que serão utilizados para melhor haver entendimento e facilidade na expressão do fruto da meditação.

1.1. Serviço de Animação Vocacional
Entende-se por Serviço de Animação Vocacional a atividade vocacional enquanto algo organizado, estruturado em organismos e instituições. É a animação vocacional organizada, coordenada, articulada por pessoas vocacionalmente animadas e habilitadas a servir o povo de Deus.

A atividade vocacional de uma Igreja local, envolvendo todo o povo de Deus, “corresponde à ação da Providência divina”(OT 2). Além disso, é “fruto e expressão da vitalidade e maturidade de toda a comunidade local” (P. 860). Por essa razão, a animação vocacional inserida na Pastoral Orgânica, deve ocupar um posto prioritário, deve ter lugar privilegiado”(Doc. N. 252, p. 885-886).

O SAV tem como missão cuidar do nascimento, do discernimento, do desenvolvimento e do acompanhamento das vocações. Ele tem por objetivos: despertar para a vocação humana, cristã e eclesial; discernir os sinais indicadores do chamado de Deus; cultivar os germes de vocação e acompanhar o processo de opção vocacional consciente e livre. Deve dar ênfase às vocações de especial consagração e, entre elas, particularmente, à vocação à vida consagrada e ao presbiterato.

1.2. Pastoral Orgânica
1.2.1. Pastoral
A palavra pastoral significa pastor. Na antiguidade os gregos usavam o termo pastoral para indicar guia, comandante, também legislador, dando a entender que o governante terreno é imagem do governante divino. Daí resulta que ser pastor tem o significado de cuidar.

Quando o povo de Deus estavam a caminho da terra prometida, o termo indicava a função de cuidar e vigiar os animais fracos, defendendo-os dos perigos e do ataque de animais bravios ou de ladrões. Passando este período, faz-se uma nítida aplicação religiosa do conceito. Para eles Deus – Iahweh – é o pastor de Israel e o povo o seu rebanho (Sl 23,1-3). Assim, por dedução, serão chamados pastores, os governantes e reis de Israel, cujas infidelidades ao povo são consideradas infidelidades ao próprio Deus. Mais tarde o termo pastor perde seu significado na vivência do povo por causa da desonestidade do mesmo povo, para com Deus e entre si.

No Novo Testamento, a palavra é usada 9 vezes nos evangelho sinótico, 6 vezes por São João, 2 vezes por São Paulo e 1 vez por São Pedro.

Jesus Cristo se apresenta como o bom pastor que ama e cuida das suas ovelhas (Mt 15,24; Jô 10,1-30). Os apóstolos são mandados a apascentar o rebanho de Deus (I Pd 2.25) e a buscar as ovelhas perdidas e dispersas (Mt 10,6).

Pastoral é a arte e a ciência de ser pastor, quer dizer, a arte e a ciência de fazer apostolado, em base ao ser constituído pastor (At 20,28), e à missão recebida pelo Supremo Pastor. Daí, terem os termos pastoral e apostolado, muitas vezes, os mesmos significados.

Apostolado é a ação ou fenômeno de ser apóstolo, isto é, enviado, mandado. O apóstolo recebeu de Cristo a missão de anunciar a todos os povos a salvação((MT 28,18-20). Ele precisa ir, andar, fazer conhecer o Evangelho, batizar: tudo isto faz parte da missão recebida. Da parte do rebanho (ouvinte) depende a aceitação livre do anúncio que, em caso positivo, provocará um novo comportamento.

Os apóstolos, isto é, os pastores enviados por ele, devem realizar as ações pastorais: fazer conhecer a verdade de maneira que este conhecimento se transforme em testemunho.
Não se trata, então, de um conhecimento apenas conceitual, intelectual, mas exige um comportamento novo, uma atitude diversa: a fé.

Esta iniciativa de Deus que se faz encontro pessoal com todo o homem. “É Deus a iniciar o diálogo, é Deus a conduzi-lo. O homem escuta e responde” positiva ou negativamente.

1.2.2. Orgânica
A pastoral orgânica e de conjunto é a condição para a Igreja ser unidade dinamizadora, em vista da eficácia permanente de sua ação. Assim, é indispensável um espaço global da Igreja, com o objetivo de atingir o conjunto das pessoas, na globalidade de seus problemas e situações.

Para que a ação pastoral da Igreja atinja o objetivo para que existe será preciso uma organização que favoreça o serviço aos batizados que vivem em comunidades. A organização favorece o serviço, a valorização dos carismas na comunidade, o serviço missionário, o atendimento às pessoas excluídas, à juventude, às crianças, e tantas mais pessoas batizadas ou que ainda estão buscando se abrir para a proposta de Jesus Cristo.

Tendo em mente que a ação pastoral da Igreja deve ser global, todos os batizados de uma comunidade local são convocados pelo próprio Deus a agir em benefício dos irmãos nos vários serviços na comunidade. A fé deverá iluminar toda a ação através das pessoas que assumiram com vigor a vida cristã.

A missão da Igreja de ser sinal e instrumento de salvação, num mundo pobre, brota do assumir a realidade em que está inserida. Os agentes pastorais deverão estar abertos a todas as pessoas que vivem na comunidade onde vive. Viver o mandato de Jesus Cristo de anunciar o Evangelho e também de apascentar as ovelhas. Para viver, cumprir este mandato de Jesus será preciso disposição, abertura, entrega, preparação e ação. O batizado não pode se omitir diante da missão que recebeu do próprio Jesus Cristo, o Senhor.

2. Animação Vocacional

2.1. O que é?

A Animação Vocacional na Igreja é todo o esforço que toda a comunidade cristã deve fazer para “dar espaço a todos os dons do Espírito”, ou, se quisermos, o estímulo que leve “todos os batizados e crismados a tomarem consciência da sua própria e ativa responsabilidade na vida eclesial”. Fazer animação vocacional é despertar em todos os batizados e batizadas o senso de Igreja e o sentido vocacional da pertença à Igreja.

Por Animação Vocacional se entende a ação de toda a Igreja, de toda a comunidade, para mediar o chamamento divino dirigido a cada uma das pessoas, convocadas pela Trindade, “antes da fundação do mundo”, para serem santas e irrepreensíveis no amor (Ef 1,4). Trata-se de mediação porque, dentro da dinâmica da história da salvação, Deus quis que a sua Palavra que convoca e provoca chegasse até nós não diretamente, mas por meio de pessoas, fatos e acontecimentos. Nesse sentido, a animação vocacional é um dever de toda a comunidade cristã, se torna mediadora da vocação divina (OT 2). Dentro dessa perspectiva toda a comunidade deve estar comprometida com o serviço vocacional (P. 861), mesmo havendo aquelas pessoas mais diretamente responsáveis que atuam no Serviço de Animação Vocacional.

Com isso, pode-se dizer que todos os membros ativos das comunidades, todos os cristãos batizados, todas as pessoas formam uma Igreja Particular são, de certa forma, animadores e animadoras vocacionais. Daí considerar a urgência de um processo de conscientização de toda a comunidade. Enquanto toda a comunidade não considerar o problema vocacional como próprio, toda e qualquer solução será apenas um mero paliativo. É preciso o envolvimento indispensável de todas as pessoas, ajuda-las a perceberem-se como filhos e filhas de Deus, chamadas e enviadas pela Trindade. É preciso resolver um outro problema nas comunidades, de circunscrever a animação vocacional somente em alguns momentos fortes da ação pastoral nas comunidades, como: mês vocacional, ordenações e profissões perpétuas. Para criar consciência no povo, tem de desenvolver uma atividade vocacional permanente. Passar de atividades esporádicas, feitas de vez em quando, para a convicção de que a dimensão vocacional é algo conatural, essencial, constante, que deve perpassar todo o processo de evangelização.

O sujeito ativo, protagonista da animação vocacional é a comunidade eclesial enquanto tal. Nesse sentido, a preocupação com as vocações não deve ser apenas da Igreja, no seu âmbito universal, mundial. Não basta também que seja uma questão que envolva a Igreja particular, de forma tantas vezes genérica e superficial. Do mesmo modo, não seja suficiente ter na paróquia uma Equipe Vocacional. A consciência de ser sujeito ativo da animação vocacional deve impregnar todas as componentes do Povo de Deus. Por isso é grande a urgência “que se difunda e se reedifique a convicção de que todos os membros da Igreja, sem exceção, têm a graça e a responsabilidade do cuidado pelas vocações”(PDV 41).

2.2. Animação Vocacional e Pastoral Orgânica
A animação vocacional “nasce do mistério da Igreja e põe-se ao seu serviço” (2o.CIV 5). Por isso ela precisa ser assumida com vigor por todos os membros da comunidade. Deve-se, como dito anteriormente, firmar sempre mais a convicção de que aquela não é um elemento secundário ou um acessório da evangelização. Dentro da Pastoral Orgânica (ou Pastoral de Conjunto) a animação vocacional deve ser acolhida como atividade intimamente inserida na ação evangelizadora de cada Igreja, dimensão conatural e essencial, parte viva e vivificante da vida e da missão da comunidade eclesial. E a razão disso, nos lembra João Paulo II, é o “fato de que a vocação define, em certo sentido, o ser profundo da Igreja, ainda antes do seu operar. No próprio nome da Igreja, Ekklesía, está indicada a sua íntima fisionomia vocacional, porque ela é verdadeiramente convocação, Assembléia dos chamados” (PDV 34).

Sendo, em si mesma, “mistério de vocação”, a comunidade cristã é a assembléia dos chamados por Deus. Por essa razão, nenhuma Igreja pode se omitir da animação vocacional e do dever de organizar o Serviço de Animação Vocacional. O próprio ser da Igreja motiva a animação vocacional na comunidade. Ainda que tivesse evangelizadores suficientes em todo o mundo, mesmo assim a dimensão vocacional não poderia ser esquecida, uma vez que esquecer esta dimensão seria deixar de ser Igreja.

Ver a dimensão vocacional como de toda a ação evangelizadora da Igreja é ainda um sonho, uma grande utopia. Há ainda muito o que fazer para se conseguir que toda a pastoral geral, toda a pastoral orgânica, esteja aberta às vocações.

A partir do que foi dito, pode-se dizer que, a missão da Pastoral Orgânica é criar no Povo de Deus um clima que favoreça o crescimento das vocações e possibilite a existência do Serviço de Animação Vocacional. Através da promoção da integração e da comunhão entre as comunidades, incentivando o contato e o diálogo entre as pessoas e as instituições eclesiais, entre as diversas vocações específicas, ela promoverá a dimensão vocacional de toda a ação evangelizadora. Numa Igreja Local, cuja Pastoral Orgânica possui vitalidade, as vocações tornam-se tema fundamental da pregação, da oração e da catequese. Nela a questão vocacional não é tratada apenas de modo direto. Estará presente também como anúncio indireto, em outros momentos da pregação, da oração e da catequese. Pode-se então deduzir que a animação vocacional “é parte integrante do ministério de uma Igreja Particular, como condição necessária e garantia de continuidade da missão”.

3. SAV e Pastoral Orgânica
O SAV deverá estar inserido na Pastoral Orgânica da comunidade local. Dentro da Pastoral Orgânica, a missão do SAV não é fazer recrutamento fácil de candidatos para os seminários ou de candidatas para as casas religiosas, como infelizmente ainda acontece em muitos lugares. O objetivo primeiro da atividade vocacional “consiste essencialmente em iniciar a participar, em modo concreto e ativo, na vida e missão da Igreja Particular”( 2o. CIV, 43). A finalidade da animação vocacional, orientada pelo SAV organizado e estruturado, é ajudar os batizados e batizadas a assumirem o seu lugar na Igreja. O serviço vocacional começa de forma mais ampla, suscitando vocações para o Reino de Deus e oferecendo as condições necessárias para o seu amadurecimento e desenvolvimento (Guia Pedagógico de Pastoral Vocacional). Somente num segundo momento é que se trabalha o discernimento para as vocações específicas. Ou, se quiser, a atividade vocacional tem início com a sensibilização da comunidade para o seguimento a Jesus Cristo. A segunda etapa tem início o aprofundamento que leva à opção consciente e livre por determinada vocação concreta. Leva ao processo de discernimento e de acompanhamento das pessoas que se sentem chamadas por Deus às vocações específicas na Igreja.

O SAV na Pastoral Orgânica tem como missão cuidar do nascimento e discernimento, do desenvolvimento e do acompanhamento das vocações. Ele, na Pastoral Orgânica, tem como missão específica impulsionar, coordenar e ajudar a promoção e amadurecimento de todas as vocações, fomentar as campanhas de oração, a fim de que o povo tome consciência das necessidades existentes. Além disso, ele deve acompanhar, no processo de discernimento, todas as pessoas que sentem o chamamento do Senhor, e ajuda-las a cultivar as disposições básicas para o amadurecimento da vocação. Cabe também ao SAV a tarefa de refletir e promover a diversidade de vocações na unidade da missão e do serviço evangelizador. Ele também é responsável pela capacitação do pessoal destinado ao trabalho vocacional, fazendo-lhe perceber o valor deste serviço. Animando toda a comunidade, a Equipe Vocacional de uma Igreja local deverá despertar, orientar e promover também vocações missionárias, incluindo aquelas destinadas à missão “ad gentes”. O surgimento de vocações missionárias é o sinal mais evidente da maturidade vocacional de uma comunidade cristã.

4. Visão de Igreja
É importante para o agente vocacional a compreensão do que é ser Igreja para ser agente do SAV. Dependendo como o batizado conhece e vive o ser Igreja, poderá prestar ótimo serviço como Igreja às pessoas que desejarem despertar o dom da vocação na Igreja.

4.1. Povo de Servidores
A visão de Igreja como povo de servidores tem sua fundamentação no Cristo que lava os pés dos seus discípulos(JO 13,1-11); e ordena para façam o mesmo, lavando os pés uns dos outros. Ele lavou os pés dos discípulos e os ensinou para que também o fizessem. Somente poderá servir, ajudar as pessoas no seguimento a Jesus Cristo no seu despertar vocacional, quem assim o fizer, tendo o próprio Jesus Cristo como modelo.

A Equipe Vocacional estará dentro do pluralismo das vocações, ministérios e carismas na Igreja. Para servir como Jesus Cristo serviu o povo de Deus, vai requerer uma grande conscientização das comunidades, levando-as a perceber a questão vocacional como responsabilidade de todos. Esta nova impostação da animação vocacional requer ainda que ela esteja voltada para todos os batizados e batizadas e não apenas para determinadas categorias de pessoas. Além disso, uma autêntica e correta proposta vocacional deve fundamentar-se necessariamente numa sólida teologia da vocação e das vocações, em sintonia com a eclesiologia, aquela do Povo de Deus, retomada pelo Vaticano II. Hoje já é possível constatar que as maiores dificuldades no campo prático do serviço às vocações estão ligadas a um conhecimento insuficiente da teologia vocacional e a uma experiência fraca e ultrapassada da Igreja. Por isso, quando falta a fundamentação teológica, a experiência da Igreja Povo de Deus, a animação vocacional, tende a ser fraca, arcaica e até mesmo inexistente.

5. Pistas de Ação
Os agentes do SAV como equipe vocacional na Pastoral Orgânica deverão ter clara sua missão na comunidade local. A Equipe Vocacional inserida na Pastoral Orgânica deverá fazer o seu plano de ação de conjunto na comunidade, levando em consideração a realidade concreta. É bom que os agentes vocacionais sejam preparados espiritualmente e intelectualmente sobre a teologia das vocações para servir, tendo como modelo Jesus Cristo, o servo de todos.

Apresento algumas atitudes, ações que a Equipe Vocacional deverá ter na Pastoral Orgânica:

1. Equipe Vocacional composta por pessoas que se propuseram viver o seguimento a Jesus como Igreja de servidores
2. Pessoas conscientes da sua vocação e buscam-na viver e aprofunda-la no seu dia a dia.
3. Viva a vida de comunhão e participação na comunidade local.
4. Interesse e amor pela comunidade local e disponibilidade para os serviços.
5. Sintonia e comprometimento com a pastoral de conjunto, através das atividades comuns e motivação vocacional a todos os agentes que fazem parte da Pastoral Orgânica.
6. Garra e amor pela causa das vocações e ministérios na Igreja.
7. Programa formativo e de ação concreto a curto, médio e longo prazo.
8. Sempre atenta e ativa aos momentos significativos da ação pastoral de Igreja local.
9. Acolhida de todas as pessoas que se demonstrarem abertas a acolher a moção do Espírito ao chamado vocacional.
10. Fundamentar bem a ação nas Sagradas Escrituras, tradição da Igreja e ensinamento do magistério.
11. Planejamento antecipado das ações na animação vocacional.
12.Encontros, retiros, estudos, lazer para melhor corresponder à missão recebida de Deus como agente da animação vocacional na comunidade – Igreja.
13. Usar os meios pós-modernos que venha ajudar na animação vocacional.

Bibliografia

1. OLIVEIRA, J.L.M., Evangelho da Vocação – dimensão vocacional da evangelização, Loyola, São Paulo, 2003.
2. GIUSTINA, E.D., A Paróquia Renovada, Paulinas, São Paulo, 1986.
3. BRIGHENTI, A., Metodologia para um Processo de Planejamento Participativo, Paulinas, São Paulo, 1988.
4. SZENTMÁRTONI, M., Introdução à Teologia Pastoral, Loyola, São Paulo,1999.
5. JOÃO PAULO II, Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Pastores Dabo Vobis”,Paulinas, São Paulo, 1992.
6. CNNB, Formação dos Presbíteros da Igreja do Brasil – diretrizes básicas, n. 45, Paulinas, São Paulo 1995.


Frei Cláudio Sérgio de Abreu